Orgão Oficial

ABCD - Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva - Brazilian Archives of Digestive Surgery

Número: 1.1 - 11 Artigos

Voltar ao Sumário

Relato de Caso

Paniculite mesentérica é um diagnostico fácil? Relato de caso

Mesenteric panniculitis is an easy diagnosis? Case report

Samuel de Sousa Alencar; Gleim Dias de Souza; Luciana R. Queiroz de Souza; Ronaldo Mafia Cuenca; Lourival de Paiva Grilo Júnior; Ícaro Pinto Silva

Clinica Digimed e Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, Brasil

Gleim Dias de Souza
E-mail: gleimdias@uol.com.br

Palavras-chave: Paniculite mesentérica

INTRODUÇÃO

De etiologia pouco elucidada, a paniculite mesentérica antigamente considerada idiopática, tem se mostrado como uma resposta à exposição prolongada a antígenos no decorrer na vida do indivíduo que já tem uma predisposição1,2. Dentre as etiologias sugeridas na literatura estão, síndrome paraneoplásica3, vasculites, desordem autoimune, pancreatite, doenças granulomatosas, doenças reumáticas, até mesmo história de infecção, cirurgia ou trauma abdominal2,5.

É mais prevalente em homens caucasianos sendo que 2 a 3 homens são acometidos para cada mulher acometida. A incidência aumenta com a idade, por isso, a faixa etária mais comum de diagnóstico é entre 50 e 60 anos sendo raro em crianças6.

 

RELATO DO CASO

Homem, 46 anos, tradutor, previamente hígido, iniciou há aproximadamente 4 meses quadro de desconforto epigástrico intermitente, associado a náusea com períodos de melhora espontânea. Há 2 semanas houve piora progressiva do quadro evoluindo com crises recorrentes de dor em aperto, intensa e difusa em todo abdome. Não apresentou febre, vômitos ou outros sintomas associados. Ao exame físico apresentou dor a palpação profunda do abdome sem presença de massa ou sinal de irritação peritoneal. No hemograma havia discreta leucocitose. Foi solicitada uma tomografia computadorizada para esclarecimento diagnóstico observando aumento na densidade da gordura mesentérica associada a linfonodomegalia sendo diagnosticado com paniculite mesentérica.

 


FIGURA 1 – Cortes axiais de tomografia computadorizada sem contraste evidenciando em A e D (setas) pequenos nódulos e em B e D (circunscrito) espessamento da gordura mesentérica com aspecto em halo

 

DISCUSSÃO

A paniculite mesentérica apresenta três estágios de evolução e pode acometer qualquer parte do mesentério, entretanto o mesentério duodenal e o jejunal correspondem de 80 a 90% dos casos e não há diferenças clínicas entre os diversos sítios de acometimento2,4. Primeiramente ocorre a lipodistrofia, onde há predomínio da necrose gordurosa do mesentério com uma inflamação mínima ou mesmo ausente desse tecido1. No exame histológico é verificada a presença de uma camada de macrófagos espumosos também chamados de "foamy cells". Nessa fase grande parte dos pacientes encontra-se assintomáticos4.

Segue então a fase de paniculite mesentérica propriamente dita. Nessa fase a inflamação que antes era mínima ou ausente passa a ser crônica e inespecífica, com presença de infiltrado celular de plasmócitos, leucócitos e células gigantes de corpo estranho7. Esse é o estágio mais sintomático da doença, quando o paciente pode apresentar febre, astenia, náusea, anorexia, perda de peso, e o principal sintoma que é a dor abdominal intermitente, motivo de procura do atendimento médico8,9.

Por fim, na fase de mesenterite retrátil, há um predomínio da fibrose que retrai o mesentério podendo causar fenômenos compressivos11 que levam as raras complicações, como quadros de oclusão e suboclusão intestinal, sendo responsável pela presença de massa abdominal palpável8 ou até mesmo compressão vascular gerando isquemia podendo evoluir para uma perfuração intestinal10.

A investigação inicial da paniculite mesentérica deve ser realizada através da tomografia computadorizada, na qual os achados dependem do estádio da doença e do componente predominante1, além de apresentar uma boa correlação com os achados patológicos e permitir avaliação da eficácia do tratamento12,13.

No estágio predominantemente inflamatório geralmente se observam na tomografia computadorizada massas heterogenias com linfonodomegalia15 envolta por um componente de gordura mesentérica de densidade aumentada em relação a gordura subcutânea a retro peritoneal14 e formação de uma pseudocápsula que delimita essa gordura afetada, dando a essa estrutura um aspecto de anel, conhecido e descrito como sinal do halo12. Estes achados desaparecem quando a doença progride para mesenterite retrátil12.

 

CONCLUSÃO

Entende-se que a paniculite mesentérica é uma afecção rara, porém deve ser sempre considerada diante de um quadro de abdome agudo recorrente e inespecífico. É indiscutível a importância da tomografia computadorizada tanto no diagnostico como na exclusão de tumores lipomatosos.

 

REFERÊNCIAS

1. Guettrot-imbert G, Boyer L, Piette JC, Delèvaux I, André M, Aumaître O. [Mesenteric panniculitis]. Rev Med Interne. 2012;33(11):621-7.

2. Gunduz Y, Tatli AP, Kara RO. Mesenteric panniculitis: a case report and review of the literature. Maedica (Buchar). 2012;7(4):344-7.

3. Wilkes A, Griffin N, Dixon L, Dobbs B, Frizelle FA. Mesenteric panniculitis: a paraneoplastic phenomenon?. Dis Colon Rectum. 2012;55(7):806-9.

4. Issa I, Baydoun H. Mesenteric panniculitis: various presentations and treatment regimens. World J Gastroenterol. 2009;15(30):3827-30.

5. Daskalogiannaki M, Voloudaki A, Prassopoulos P, et al. CT evaluation of mesenteric panniculitis: prevalence and associated diseases. Am J Roentgenol. 2000;174:427–31.

6. Patel N, Saleeb SF, Teplick SK. General case of the day. Mesenteric panniculitis with extensive inflammatory involvement of the peritoneum and intraperitoneal structures. RadioGraphics 1999;19: 1083–5.

7. Kipfer RE, Moertel CG, Dahlin DC. Mesenteric lipodystrophy. Ann Intern Med 1974;80:582–8.

8. Ogden WW, Bradburn 2nd DM, Rives JD. Pannicultis ofthe mesentery. Ann Surg 1960;151:659–68

9. Sans M, Varas M, Anglada A, Esperanza Bachs M, Navarro S, Brugues J. Mesenteric panniculitis presenting as fever of unknown origin. Am J Gastroenterol 1995;90:1159–61.

10. Mathew J, McKenna F, Mason J, Haboubi NY, Borghol M. Sclerosing mesenteritis with occult ileal perforation: report of a case simulating extensive intra-abdominal malignancy. Dis Colon Rectum 2004;47:1974–7.

11. Seo BK, Ha HK, Kim AY, Kim TK, Kim MJ, Byun JH, et al. Segmental misty mesentery: analysis of CT features and primary causes. Radiology 2003;226:86–94.

12. Sabaté JM, Torrubia S, Maideu J, Franquet T, Monill JM, Pérez C. Sclerosing mesenteritis: imaging findings in 17 patients. AJR 1999;172:625-9

13. Hemaidan A, Vanegas F, Alvarez OA, Arroyo MA, Lee M. Mesenteric lipodystrophy with fever of unknown origin and mesenteric calcifications. South Med J 1999;92:513–6.

14. Wat SY, Harish S, Winterbottom A, Choudhary AK, Freeman AH. The CT appearances of sclerosing mesenteritis and associated diseases. Clin Radiol 2006;61:652–8.

15. Ondrejka P, Faller J, Sapi Z, Sugar I. Mesenteric panniculitis spreading to the pancreas simulating pancreatic neoplasm. Endoscopy 1998;30:S94–5

 

Copyright 2018 - Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva