Orgão Oficial

ABCD - Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva - Brazilian Archives of Digestive Surgery

Número: 1.1 - 11 Artigos

Voltar ao Sumário

Relato de Caso

Síndrome do sotaque estrangeiro secundária a traumatismo cranioencefálico

Foreign accent syndrome secondary to traumatic brain injury

Osvaldo Malafaia1; José Guilherme da Silva Amorim2; Marília Burdini BORGHI3; Hugo Akio Hasegawa3; Dafne Luana Bayer3; Talita Ribeiro da Silva3

Hospital Santa Casa de Londrina, Londrina- PR

Osvaldo Malafaia
E-mail: osvaldomalafaia@gmail.com

Palavras-chave: Ferimentos e Lesões, Traumatismos Craniocerebrais

INTRODUÇÃO:

A síndrome do sotaque estrangeiro (SSE) é uma entidade clínica muito rara, havendo menos de 70 casos descritos na literatura1. Caracteriza-se por um distúrbio motor da fala que leva a um sotaque estrangeiro da língua materna o qual pode ser precedido por afasia ou disartria2. Na maioria dos casos o indivíduo não teve contato prévio com o idioma cuja pronúncia tenha sido adquirida3. A SSE afeta o hemisfério dominante para as funções de linguagem, porém não há uma região cortical específica associada4. Seu diagnóstico é essencialmente clínico e é corroborado pela presença de lesão encefálica evidenciada em exames de imagem5. Tal entidade ainda é pobremente compreendida.

Este artigo visa descrever um caso de síndrome do sotaque estrangeiro após traumatismo cranioencefálico (TCE) moderado cuja alteração da fala desenvolveu-se tardiamente.

 

RELATO DE CASO:

Feminino, 51 anos, auxiliar de limpeza, vítima de queda de nível e à admissão encontrava-se consciente, confusa, com amnésia lacunar e Escala de Coma de Glasgow 14. Ao exame físico, evidenciou-se trauma em região temporal, hematoma periorbital e exame neurológico apresentou afasia transitória, paralisia do VI nervo craniano e sem demais alterações. A tomografia computadorizada de crânio evidenciou contusão hemorrágica temporal e fratura periorbital com aumento de volume de músculo temporal, ausência de sinais de hipertensão intracraniana.

Após um mês, a paciente desenvolveu disartria fluente com um carregado sotaque espanhol, porém negou qualquer contato prévio com o idioma. Passados 6 meses do trauma foi solicitada em ambulatório novo exame de imagem que evidenciou apenas lesão antiga em lobo temporal.

Atualmente, após 4 anos e 5 meses, a paciente permanece estável, mas com persistência do "sotaque estrangeiro", porém não refere melhora, apesar do acompanhamento com a fonoaudiologia.

 

DISCUSSÃO:

A SSE foi descrita primeiramente, em 1917, por Marie e Foix, quando um soldado francês, após TCE durante a Primeira Grande Guerra, desenvolveu um sotaque em sua pronúncia, além de uma hemiparesia no lado direito2.

Tal síndrome é caracterizada por um distúrbio qualitativo da melodia e ritmo da fala cujas, principais causas são o acidente vascular encefálico, trauma - como no relato apresentado-, neoplasias intracranianas, atrofia cerebral e ainda ser o primeiro sinal clínico da esclerose múltipla6,7,8.

Tal alteração pode ser transitória (com resolução espontânea em 1 mês) ou perdurar por até 30 anos9. Nossa paciente apresenta um quadro persistente, até então, e que a duração condiz com a literatura.

É reportada uma variedade de possíveis sotaques, incluindo o espanhol, e aponta uma relação com a língua materna (ex: sotaque americano ou australiano com o inglês)10, bem como ilustrado nesse caso.

Tal síndrome pode ser uma manifestação isolada, assim como apresentado pela paciente, ou se associar com outros déficits neurológicos, como agrafia ou hemiplegia9.

O tratamento se baseia no suporte da situação neurológica de base, em associação com terapia da fala1. Sobre o tema, destaca-se ainda que implicações emocionais importantes podem surgir, relacionados com a perda repentina de identidade pessoal pelo sotaque estrangeiro2.

 

CONCLUSÃO:

É fundamental o conhecimento e suspeição clínica da SSE dentre os possíveis diagnósticos dos distúrbios da fala devido ao impacto na qualidade de vida do indivíduo, a despeito da sua raridade e ausência de tratamento efetivo.

 

REFERÊNCIAS

1. Marques JG. "Síndrome do sotaque estrangeiro" secundário a perturbação dissociativa motora. Casos clínicos Hospital da Luz 2013-2014; 133-137.

2. González-Álvarez MA, Parcet-Ibars CA, Geffner-Sclarsky D. Una rara alteración del habla de origen neurológico: el síndrome del acento extranjero. J Rev Neurol 2003;36:227-34.

3. Miller N. Foreign accent syndrome. Not such a funny turn. Inter J Ther Rehab 2007;14:388.

4. Van Borsel J, Janssens L, Santens P. Foreign accent syndrome: an organic disorder? J Commun Disord 2005;38(6):421-429.

5. Moonis M, Swearer JM, Blumstein SE, et al. Foreign accent syndrome following a closed head injury: perfusion deficit on single photon emission tomography with normal magnetic resonance imaging. Neuropsychiat Neuropsychol Behav Neurol 1996;9: 272-279.

6. Tomasino B, Marin D, Maieron M, Ius T, Budai R, Fabbro F, et al. Foreign accent syndrome: A multimodal mapping study. Cortex 2013;49:18-39.

7. Katz WF, Garst DM, Briggs RW, Cheshkov S, Ringe W, Gopinath KS, et al. Neural bases of the foreign accent syndrome: a functional magnetic resonance imaging case study. Neurocase 2012;18:199-211.

8. Abel TJ, Hebb AO, Silbergeld DL. Cortical stimulation mapping in a patient with foreign accent syndrome: case report. Clin Neurol Neurosurg 2009;111:97-101

9. Edwards RJ, Patel NK, Pople IK. Foreign accent following brain injury: Syndrome or epiphenomenon? Eur Neurol. 2005;53(2):87–91.

10. Luzzi S, Viticchi G, Piccirilli M, Fabi K, Pesallaccia M, Bartolini M, et al. Foreign accent syndrome as the initial sign of primary progressive aphasia. J Neurol Neurosurg Psychiatry [Internet]. 2008;79(1):79–81. Available from: http://jnnp.bmj.com/cgi/doi/10.1136/jnnp.2006.113365.

 

Copyright 2018 - Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva